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29/10/2009 Diminuir tamanho da letra
Vale tudo não é nada
No Dia Nacional do Livro, o poeta Ferreira Gullar critica o vale tudo na arte contemporânea e comenta o incêndio recente nas obras do artista Hélio Oiticica.
Adriano Belisário

Em uma noite nos anos 1960, o poeta Ferreira Gullar conversava com Hélio Oiticica sobre novas possibilidades de apresentações artísticas. A primeira ideia: levar as obras neoconcretas às ruas, espalhando-as pela cidade. Porém, receoso de um extravio nas peças, Oiticica nega a proposta. Gullar, então, vai além. Propõe colocar bombas nas obras e fazer uma exposição que terminasse explodindo tudo, literalmente. “Eu não vou destruir minhas obras”, respondeu Hélio.

Por ironia do destino, um incêndio recente transformou em cinzas boa parte do acervo de Hélio Oiticica. Segundo Gullar, havia algo de suicida no movimento neoconcreto, que em alguns momentos se aproximava da destruição da arte por completo. Apesar da recusa à proposta da exposição-bomba, não poderiam ser as chamas um gran finale da arte de Oiticica?

“Cheguei a fazer esta associação. Mas ele era meio tímido. Ficou suando frio quando comentei sobre as explosões. Na fase das Cosmococas, ele desbunda, mas até então era muito rigoroso com seu trabalho”, disse Ferreira Gullar em debate no evento Livre-se, que ocorreu na Biblioteca Nacional em 29 de outubro, Dia Nacional do Livro.

Hoje, o poeta maranhense ri das ousadias do passado. Ser rebelde virou moda, diz. Gullar ainda questiona o valor artístico de muitos trabalhos contemporâneos e critica a conivência da crítica especializada. “Arte não é um vale tudo. Às vezes, é a instituição que legitima a condição artística da obra e não a própria. Se estivesse fora do museu, não seria nada demais. Os curadores formam uma patota. É uma grande trapaça, mas os críticos não têm coragem de dizer isto porque temem não reconhecer uma suposta vanguarda”, dispara.

Gullar ainda recordou da dissidência com o movimento concretista de São Paulo. As diferenças começaram a aparecer a partir da proposta do Plano-Piloto da Poesia Concreta, mas a separação de fato ocorreu apenas quando Augusto de Campos escreveu o texto Da fenomenologia da composição à matemática da composição. Anos depois, os concretistas ainda propuseram a Gullar outro manifesto, desta vez sobre a criação de uma “poesia de base” no Brasil, mas a ideia não entrou no papel. “É próprio da vanguarda escrever manifestos dizendo coisas que não vão ser feitas, assim como os políticos”, compara.

O poeta afirma ainda estar sereno com seus quase 80 anos de vida, garante que já morreu uma vez e gostou da experiência. Durante o exílio no Chile, após um dia inteiro em jejum, Gullar desmaiou após comer uma pizza bruscamente. “Quando acordei, tive a sensação de voltar de um lugar que era de uma paz e silêncio enormes. Um lugar onde nunca aconteceu nada. É a eternidade. Eu adorei”.

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