“Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão”. Dita pelo presidente Lula em entrevista recente, a frase levantou críticas e trouxe à tona a discussão sobre alianças em nome da governabilidade. Abraçar um antigo inimigo é gesto corriqueiro em nossa história política.
“Lula tem demonstrado grande desenvoltura em fazer alianças com ex-inimigos e o papel do PMDB neste pacto de governabilidade tem sido essencial. Mas trata-se de uma tradição observada em diversos líderes políticos nacionais e estrangeiros. Veja o pacto entre Churchill e Stalin, por exemplo. Todos foram capazes, em nome de seus projetos políticos, de realizar grandes reviravoltas
que, às vezes, surpreenderam até correligionários e amigos mais próximos. A rigor, Lula não está inovando nada”, analisa Daniel Aarão, professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense.
A participação do comunista Luís Carlos Prestes no movimento queremista expressa um episódio onde os acordos assumiram traços trágicos, além de improváveis. Nem mesmo a morte de sua esposa Olga Benário, por conta do governo varguista, foi capaz de impedir que o guerrilheiro se alinhasse a Getúlio Vargas para impedir a ascensão da União Democrática Nacional (UDN), considerada um risco maior.
Anos mais tarde, o “pai dos pobres” também foi o pivô de outro acordo que surpreendeu o país. Afilhado político de Getúlio, João Goulart causou espanto ao firmar um pacto com o ex-arquiinimigo Carlos Lacerda, tido como um dos responsáveis pela morte de Vargas. A Frente Ampla foi lançada em outubro de 1966, contando ainda com a presença de Juscelino Kubitschek e o repúdio de Leonel Brizola, que considerava o acordo espúrio, ainda que a união fosse para combater os desmandos do regime militar.
Na história recente, além de Lula, outros governantes também exercitam a arte do desapego ao passado. Em 2008, Fernando Gabeira foi ao Clube Militar pedir votos para sua candidatura a prefeito do Rio de Janeiro. Quase 40 anos antes, ele participava do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick para pressionar as Forças Armadas a libertarem presos políticos.
Segundo Daniel Aarão, as coligações com ex-inimigos devem ser encaradas com certa naturalidade nos corredores do poder. “Alianças improváveis são um ingrediente essencial na vida política e quem não tiver estômago para isto não deve se meter nela. Muitos acadêmicos e outras vestais que condenam veementemente estas reviravoltas, frequentemente as fazem de tipo muito semelhante nas ‘lutas políticas’ acadêmicas, tão ‘assassinas’ como as lutas políticas e prenhes de reviravoltas improváveis”.