Após mais de um ano de molho por conta de uma lei estadual que coibia sua realização, os bailes funk estão de volta no Rio de Janeiro. Mas a polêmica permanece: os funkeiros querem, agora, que o ritmo seja reconhecido como manifestação cultural. Eles sabem que têm pela frente um caminho tortuoso. “Muita gente ainda confunde funkeiro com traficante”, lamenta Leonardo Mota, o MC Leonardo. “Justamente porque ele tem cor que não é a branca, tem classe que não é a dominante e tem moradia que não é no asfalto”.
Os tempos são outros, porém a sina da discriminação pelo batuque que vem dos morros corre décadas. Hoje glória nacional, o samba também viveu seus dias de pária. Se MC Leonardo já apanhou da polícia só por estar de tênis, boné e bermuda – a tríade dos funkeiros –, muito sambista também já enfiou a viola no saco para se esquivar das autoridades.
“Lá pela década de 1920, bastava andar com o violão na rua e você já ia preso, pois era considerado vagabundo. Ismael Silva passou um tempo na cadeia e João Baiana foi preso várias vezes por estar andando com seu pandeiro”. Quem recorda é Giovanna Dealtry, professora do departamento de comunicação da PUC-Rio e au
tora do livro No fio da navalha – Malandragem na literatura e no samba (Casa da Palavra), que acaba de chegar às livrarias.
À época, os novos homens livres padeciam dos preconceitos que acompanhavam a recente libertação dos escravos. Com dificuldade de se inserir na sociedade, eles eram vistos com pudor pelas elites. E o próprio estado lhes torcia o nariz. “As leis mencionavam palavras como vadiagem. Qualquer indivíduo sem trabalho era considerado perigoso, e o samba começa a ser visto como negação do trabalho”, pontua Giovanna.
Para fugir desse estigma, a chamada primeira geração de sambistas, dos anos 1910, nasceu comportada, e com a preocupação de burilar sua música. Chorões como Donga, Sinhô e Pixinguinha lançaram mão de instrumentos de corda e de sopro para emoldurar composições tecnicamente elaboradas. “Eles são fruto dessa repressão e, por isso, querem construir a imagem do sambista separada da do vagabundo”, explica a autora.
Na década seguinte, porém, a nova geração troca os salões pelos botecos ao pé dos morros. Ali, quem dita o ritmo são a cuíca, o pandeiro e o tamborim. E o violão, quando aparece, segue a intuição do “músico”, sem maiores técnicas. “Essa geração já assume a malandragem como ideia de individualidade. O samba passa a ser portador da história da exclusão social”, diz Giovanna.
Isso fica claro não só pelo comportamento dos sambistas, que regavam as rodas com cerveja e jogatina, como pelas letras das canções. Repudiada pela elite, a malandragem é incorporada nas músicas, que a tratam com ironia e deboche. O samba se assume como filho do morro.
Com a chegada do rádio, o ritmo começa a quebrar as fronteiras da periferia. Com o projeto nacionalista de Getúlio Vargas, incorporando as manifestações populares do país, o ritmo entra definitivamente para o imaginário nacional. A professora da PUC, no entanto, lembra que sua inclusão é facilitada no fim dos anos 20 pelas gravações de sambistas como Noel Rosa e Francisco Alves, brancos e de classe média. “Mesmo vistos como boêmios, não era a mesma coisa de um negro”.
Filho do morro, o funk hoje também tem apoio de quem é do asfalto. A cantora Fernanda Abreu, o antropólogo Hermano Vianna e a própria secretária estadual de Cultura, Adriana Rattes, fizeram coro pela volta dos bailes.
MC Leonardo agradece a força, mas ressalta que a batida só pode ser perfeita se vier das favelas: “O cara só vai saber falar do barracão de zinco se viver no barracão de zinco. Só vai saber cantar o dia a dia da favela se morar lá”, diz. “O funk está nas mãos do favelado”.