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17/10/2009 Diminuir tamanho da letra
Hoje funk, ontem samba
Discriminada pelo Estado, a batida que vem das favelas enfrenta os mesmos percalços pelos quais o samba passou no início do século passado.
Bernardo Camara

Após mais de um ano de molho por conta de uma lei estadual que coibia sua realização, os bailes funk estão de volta no Rio de Janeiro. Mas a polêmica permanece: os funkeiros querem, agora, que o ritmo seja reconhecido como manifestação cultural. Eles sabem que têm pela frente um caminho tortuoso. “Muita gente ainda confunde funkeiro com traficante”, lamenta Leonardo Mota, o MC Leonardo. “Justamente porque ele tem cor que não é a branca, tem classe que não é a dominante e tem moradia que não é no asfalto”.

Os tempos são outros, porém a sina da discriminação pelo batuque que vem dos morros corre décadas. Hoje glória nacional, o samba também viveu seus dias de pária. Se MC Leonardo já apanhou da polícia só por estar de tênis, boné e bermuda – a tríade dos funkeiros –, muito sambista também já enfiou a viola no saco para se esquivar das autoridades.

“Lá pela década de 1920, bastava andar com o violão na rua e você já ia preso, pois era considerado vagabundo. Ismael Silva passou um tempo na cadeia e João Baiana foi preso várias vezes por estar andando com seu pandeiro”. Quem recorda é Giovanna Dealtry, professora do departamento de comunicação da PUC-Rio e autora do livro No fio da navalha – Malandragem na literatura e no samba (Casa da Palavra), que acaba de chegar às livrarias.

À época, os novos homens livres padeciam dos preconceitos que acompanhavam a recente libertação dos escravos. Com dificuldade de se inserir na sociedade, eles eram vistos com pudor pelas elites. E o próprio estado lhes torcia o nariz. “As leis mencionavam palavras como vadiagem. Qualquer indivíduo sem trabalho era considerado perigoso, e o samba começa a ser visto como negação do trabalho”, pontua Giovanna.

Para fugir desse estigma, a chamada primeira geração de sambistas, dos anos 1910, nasceu comportada, e com a preocupação de burilar sua música. Chorões como Donga, Sinhô e Pixinguinha lançaram mão de instrumentos de corda e de sopro para emoldurar composições tecnicamente elaboradas. “Eles são fruto dessa repressão e, por isso, querem construir a imagem do sambista separada da do vagabundo”, explica a autora.

Na década seguinte, porém, a nova geração troca os salões pelos botecos ao pé dos morros. Ali, quem dita o ritmo são a cuíca, o pandeiro e o tamborim. E o violão, quando aparece, segue a intuição do “músico”, sem maiores técnicas. “Essa geração já assume a malandragem como ideia de individualidade. O samba passa a ser portador da história da exclusão social”, diz Giovanna.

Isso fica claro não só pelo comportamento dos sambistas, que regavam as rodas com cerveja e jogatina, como pelas letras das canções. Repudiada pela elite, a malandragem é incorporada nas músicas, que a tratam com ironia e deboche. O samba se assume como filho do morro.

Com a chegada do rádio, o ritmo começa a quebrar as fronteiras da periferia. Com o projeto nacionalista de Getúlio Vargas, incorporando as manifestações populares do país, o ritmo entra definitivamente para o imaginário nacional. A professora da PUC, no entanto, lembra que sua inclusão é facilitada no fim dos anos 20 pelas gravações de sambistas como Noel Rosa e Francisco Alves, brancos e de classe média. “Mesmo vistos como boêmios, não era a mesma coisa de um negro”.

Filho do morro, o funk hoje também tem apoio de quem é do asfalto. A cantora Fernanda Abreu, o antropólogo Hermano Vianna e a própria secretária estadual de Cultura, Adriana Rattes, fizeram coro pela volta dos bailes.

MC Leonardo agradece a força, mas ressalta que a batida só pode ser perfeita se vier das favelas: “O cara só vai saber falar do barracão de zinco se viver no barracão de zinco. Só vai saber cantar o dia a dia da favela se morar lá”, diz. “O funk está nas mãos do favelado”.

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