Entre a aldeia e a cidade

Portal desenvolvido por ONG reúne mais de 200 artigos escritos por indígenas para ajudar professores a trabalhar com o tema em sala de aula “O índio descobriu primeiro”. Este é

Da passarela para a sala de aula

Alunos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte utilizam a moda de três décadas como elemento lúdico para o aprendizado de História Recortes de tecido, lantejoulas, babados e bordados.

Entre a aldeia e a cidade

Portal desenvolvido por ONG reúne mais de 200 artigos escritos por indígenas para ajudar professores a trabalhar com o tema em sala de aula

“O índio descobriu primeiro”. Este é o título de um dos muitos artigos que compõem o site Índio Educa, projeto desenvolvido pela ONG Thydewá e formado por um time de universitários indígenas de diferentes etnias e regiões do Brasil. A ideia surgiu em 2008, quando foi da passarela para a sala de aula e hoje o portal já conta com cerca de 200 textos escritos por eles, que ajudam recontar a história, indo de encontro com versões mais tradicionais. Aqui, a resposta para a famosa pergunta “Quem descobriu o Brasil?” é outra.

Em 2008, impulsionados pela Lei 11.645 – que torna obrigatório o ensino das Histórias Afro-Brasileira e Indígena no currículo oficial da rede de ensino –, o pessoal da organização Thydewá começou a reunir jovens interessados em produzir material que servisse de apoio a professores e alunos. Em 2011, o portal Índio Educa estava pronto para seu lançamento. Para o presidente da ONG, Sebastian Gerlic, “a época do índio sem voz está terminando”.

A plataforma online tem o objetivo de produzir material educativo, tentando desconstruir alguns preconceitos como a ideia de que índios ainda vivem nus. “O portal responde às perguntas formuladas na cabeça das pessoas que, desde quando se ouvia falar de índio, condicionavam (e ainda condicionam) o estereotipo de indígena”, explica Hemerson Dantas, colaborador da Aldeia Pataxó de Pau Brasil.

“O Índio Educa é destinado a professores, que podem utilizar livremente o conteúdo lá contido em suas aulas para que os alunos entendam o indígena da maneira mais real possível. Pensando assim, nada melhor do que o próprio índio contando sua história, ou seja, sendo protagonista”, conclui Hemerson.

O conteúdo do site encontra-se em formato de Recurso Educacional Aberto, com licença Creative Commons. O que significa que o material pode ser utilizado e modificado por outras pessoas, como professores que queiram montar um conteúdo didático próprio. Segundo o estudante de História Alex Makuki, um dos gestores do Índio Educa, qualquer um pode se tornar colaborador. “Quem posta no portal são os cinco indígenas que fazem parte da gestão e mais outros colaboradores. Nós recebemos artigos, fotos e textos e damos todos os créditos ao autor”.

Sobre a gama variada de temas abordados no site, como as moradias indígenas, Makuki reafirma a necessidade da desmistificação de certos conceitos enraizados pelo senso comum, como a ideia de casa de índio é sempre de palha.  “Cada texto postado no portal tem uma pitada de senso critico, no sentido de contar uma história partindo do ponto de vista dos povos indígenas.”

Para a pesquisadora Simone de Athayde, do Programa Xingu do Instituto Socioambiental (ISA), iniciativas como esta são de extrema relevância para o estudo e ensino da História do Brasil. “No caso dos povos indígenas, ouvir a história contada por eles vem a enriquecer o nosso conhecimento, e considerar que a nossa história se inicia bem antes do ‘descobrimento’ em 1500. Acho que além de iniciativas como este site, deveríamos incluir mais abordagens como estas nas aulas e nos livros didáticos utilizados em escolas publicas e privadas no Brasil”, conclui.

Da passarela para a sala de aula

Alunos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte utilizam a moda de três décadas como elemento lúdico para o aprendizado de História

Recortes de tecido, lantejoulas, babados e bordados. O que cobre os corpos pode ser material pedagógico importante para desvendar o comportamento social de uma época. Esta foi a conclusão de um grupo de alunos do curso de Metodologia do Ensino da História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) – Campus de Caicó, cujo objetivo era estudar as relações entre moda, gênero e a história local. Para isso, reuniram peças dos guarda-roupas de habitantes das cidades de Ouro Branco, Serra Negra do Norte, São João do Sabugi, Caicó e Jardim de Piranhas, no interior do estado, além de fotografias e narrativas da população local. A análise do material, com base em obras de estudiosos da moda, como Gilles Lipovetsky, Alison Lurie e Gilda de Melo e Souza, permitiu enxergar as relações entre homens e mulheres como uma construção social e distinguir as formas de comportamento em diferentes ocasiões sociais e momentos históricos.

A proposta do grupo era mostrar que o corpo se veste de moda, no sentido moderno do termo, há pelo menos três séculos. Embora os diferentes povos tenham estilos de vestir adequados ao tempo, ao clima, às situações sociais e às experiências pessoais, somente a partir do século XVIII a vestimenta passou a ditar gostos particulares. Nessa época surgiram a profissão de estilista e a diferenciação dos consumidores de moda entre modernos e “fora de moda”. No século XX, a mídia – em particular as revistas de moda e a televisão – utilizou novas tecnologias que deram visibilidade ao jeito de se vestir conforme as ocasiões.

Além de utilizar fontes escritas, os alunos da UFRN buscaram também as “fontes” costuradas, bordadas e enfeitadas, que, embora concebidas para serem vistas, passam despercebidas pelo olhar dos historiadores. A reflexão levou os estudantes a cidades do interior do estado, onde garimparam guarda-roupas em busca de tecidos, couros, lingerie, zíperes.

O contato com esse “império do efêmero”, como pode ser chamada a moda, despertou nos alunos várias reflexões sobre a memória histórica do país. Entre essas indagações, surgidas ao estudarem a projeção no cenário nacional dos modelos criados pelos estilistas, estavam o motivo para a popularidade das  calças pantalonas na década de 1970 e por que os chamados modelos  unissex não caíram no gosto dos homens do interior do Rio Grande do Norte.

A pesquisa analisou a moda durante as décadas de 1970 a 1990, um período recente, o que facilitou a tarefa de se encontrar as roupas desses períodos. Foram considerados aspectos como o desenho do modelo, a ocasião em que foi usado, o impacto causado nas pessoas em volta e também o sentimento de quem o vestiu. O estudo observa ainda as relações entre moda, situação econômica, histórias de festas nas quais as vestimentas foram usadas e a memória de quem as vestiu.

Fotografias da época também integram a pesquisa, revelando aspectos da vida das pessoas que não puderam ser expressos por descrições verbais. A imagem fotográfica, no entanto, não fala da textura dos tecidos, das cores (muitas fotografias eram em preto-e-branco), dos rituais de escolha dos modelos, da confecção, do custo financeiro, do prazer em usar determinada roupa, da impressão que causava nas pessoas. Para preencher essas lacunas, os alunos recorreram à história oral, narrada pelos proprietários das fotos, como mais um recurso de informação.

Os estudantes analisaram fotografias e modelos, como as saias godês, as calças boca-de-sino, o tubinho criado por Yves Saint-Laurent sob inspiração dos quadros de Mondrian, o estilo unissex, marcado pelo jeans e pelas camisas sem gola, as saias plissadas, a saia balonê, os vestidos com zíperes laterais, usados por mulheres da zona rural do interior do Rio Grande do Norte, e as calças US-Top, que marcaram época entre os jovens do início dos anos 1980. O que parecia um brechó era, na verdade, uma aula em que conceitos de tempo e espaço eram trabalhados. Das minissaias inventadas pela inglesa Mary Quant nos anos 1960 às saias balonê dos anos 1980, a história ia sendo contada por décadas.

Em termos de região, percebeu-se que as mulheres da cidade de Ouro Branco (RN) se enfeitavam com muito brilho, cobrindo a textura dos tecidos com centenas de lantejoulas, enquanto as mulheres da zona rural preferiam os tecidos floridos, estampados, de cores escuras, enfeitados com sianinha, entremeio, galões e bicos. Muito mais do que um ciclo de vinte aulas sobre moda e comportamento, a pesquisa despertou reflexões sobre a economia nacional e local, globalização, relações entre homens e mulheres, história regional e histórias da comunidade.

Ao reunir recursos como a fotografia, as narrativas orais e as vestimentas de uma época, o professor de História passa a dispor de um rico acervo documental que permite o estudo de costumes, perfis socioeconômicos, festividades (batizados, casamentos, aniversários, comícios, entre outras) e memória local. Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a experiência mostrou que o material reunido na sala de aula – tecidos, modelos e cores – instigou os alunos, despertando suas idéias e sua criatividade. O estudo da moda permitiu enfatizar que homens e mulheres não são apenas intelecto, mas também possuem um corpo que fala, que sente, que escolhe o que vestir, como se enfeitar e que tipo de discurso deseja transmitir por meio de suas vestimentas.

A pesquisa realizada na UFRN se configura como uma metodologia de ensino que não está registrada em livros didáticos ou de ensino superior. Não se trata de experiência pedagógica efêmera, mas sim consistente, por caracterizar o ensino de história da moda e do gênero como uma das vertentes mais importantes dentro da nova historiografia dos estudos culturais.

Iranilson Buriti de Oliveira é doutor em História, professor da Universidade Federal de Campina Grande e autor de “Ensinando pela roupa: a educação do corpo através da moda no Recife dos Anos 20”. Revista Faces de Eva. (Universidade de Lisboa, 2004)